segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Um amor, uma vida

E há quem pense que os animais não pensam... eu sinceramente acho que pensam mais do que nós, reles seres humanos.

Quinta-feira, 29/11/2007. Morre um pedaço de mim, morre minha filha.

Kathy Mathy Hessel Bernsdorf Cascacu Minhoca Gata Rata Mosca Bichinho Virtual Trócinho. Putchuca. Cara de concha. Zoiuda, Patuda, Orelhuda, Pansuda, Gorda, Gordinha, Gordoneida, Filhota... tantos apelidos para denominar essa minha VIDA, minha companheira de tantos anos, mas nenhuma palavra que realmente faça sentido neste momento, a não ser SAUDADES.




Hoje tenho 20 anos. Ganhei Kathy com meus 8, 9 anos. Pense em como está sendo minha vida sem essa Nariguda, sem essa Bigoduda.

Pense em como foi difícil vê-la caída, ensangüentada... eu não pude fazer nada, a não ser gritar e chorar e espernear e sofrer e chorar e chorar e gritar e chorar...

Minha vida perdeu o rumo, está sem sentido. Um pedaço de mim foi tirado assim, de uma hora pra outra, sem aviso prévio. Ou com aviso, que eu não pude compreender. Ela me olhou, perdeu o fôlego, apavorada. E não foi uma vez. E eu, na minha cabeça de bagre, pensei que ela iria me atacar sorrateiramente.

Minha vida é o que agora? Alguém me explica? Como que chego em casa e não a vejo? Quem vem me receber na porta? Quem se enrola a ponto de sempre ser levada escada a cima no colo, por pura preguiça e excesso de chamego? Quem rouba meu lugar na cama, na maior cara de pau? Quem fica fazendo barulhinhos quando come ou toma banho? Quem vai roncar do meu lado, a ponto de eu trancar a sua respiração para acordar e parar de chiar? Quem vai miar e miar e miar nas janelas, de forma a pular no colo quando entra em casa? Quem vai me acordar pra poder dormir debaixo das cobertas comigo? Quem vai, toda manhã, comigo ao banheiro e vai me esperar ficar pronta para pegá-la no colo? Quem vai me acordar de manhã, cedinho, pra ser resgatada em meio a árvores e cachorros? Quem vai me chutar de brincadeira, morder de brincadeira e amar verdadeiramente? Quem vai afiar as unhas no sofá? Quem vai pegar a bolinha de ping-pong e sair correndo feito louca pela casa? Quem vai me esperar pacientemente enquanto tomo banho? Quem vai me agüentar virando de um lado pro outro a noite toda? Quem vai rolar no chão, ao sol, enquanto penduro roupa? Quem vai miar na porta da cozinha e muito discretamente vai entrar lá, como se fosse a coisa mais normal do mundo? Quem vai vir me observar limpar as caquinhas, olhando com uma cara safada de “eu sujo, você limpa, bobona!”? Quem vai passear pelas minhas pernas depois do banho? Quem vai colocar a mão no meu rosto enquanto dormimos? Quem vai ser enrolada em cobertores e colocada na cama feito criança? Quem eu vou vestir com as roupas mais absurdas? Quem vai servir de modelo pra fotos e mais fotos? Quem vai me amar da forma mais sincera possível, se não você, Kathy, meu amor?! Escrevo, caros amigos, com um nó na garganta, chorando e não entendendo o porquê das coisas.

Uma semana tão interessante, uma expectativa pela viagem à Sampa... e ela se vai, sem me dizer ADEUS!

Senhoras e Senhores, “sofrer por um bicho” não é infantilidade. A pureza do amor de um animal não tem preço; a sinceridade de um animal não tem tamanho. Você tem duas opções: ou me acha uma babaca, ou me compreende. Se você escolheu a primeira opção, ótimo – saiba, penso o mesmo de você! Mas se você escolheu a segunda, parabéns! Seu coração é tão grande e tão humilde que pode ver em pequenos gestos o amor de Deus!

Um ser peludinho, malhado, de rabo comprido e bunda de coração! Um andar mais sexy? Impossível: rebolava mais que a loira do Tchan! Um amor maior? Talvez um dia encontre, talvez não. A sinceridade de minha filha ultrapassava os limites: quando ela não aprovava uma atitude minha, simplesmente me dava as costas e saía. Quer maior sinceridade? Nunca fingiu gostar de nada, sempre foi verdadeira. Foi minha amiga e foi pra ela que eu contei meus maiores segredos, minhas angústias e minhas verdades. Ela é a única que me conhece como eu verdadeiramente sou, em todos os aspectos. Ela sempre me ouviu, e quando parecia não concordar descia da cama. Eu simplesmente entendia: mãe, cale a boca! Sim, eu ouvia ela dizer mãe! Cala a boca não, pois minha imaginação não chegava a tanto!

Meu amor, minha vida! Pensei em uma música hoje que descreve o que você foi pra mim todos esses anos, e só de pensar em ficar sem você pro resto da vida em carne, osso e muito pêlo caio em lágrimas...

“Um anjo do céu

Que trouxe pra mim

É a mais bonita

A jóia perfeita

Que é pra eu cuidar

Que é pra eu amar

Gota cristalina

Tem toda a inocência”

Mas saiba meu amor, por mais que você não entenda a linguagem escrita nem falada dos seres humanos – creio em Deus, e sei que ele transmitirá minhas saudades a você, minha vida – eu deixo este singelo depoimento em virtude da sua falta, da sua ausência, ausência essa que me mata! Estou triste, estou acabada. Preciso estudar, mas só penso em você. Queria te pegar no colo, te colocar pra dormir, trazer leitinho pra você e dar ração pra você na minha mão, pois sua preguiça era incontestável.

Minha paixão, esteja com Deus e brinque muito no céu. Aí você pode ser eternamente livre, e um dia iremos nos reencontrar, com certeza! Sei que esse momento será de muita luz, pois você foi e sempre será uma bênção de Deus em minha vida!

Beijos, mordidas e abraços de sua mãe que lhe amará eternamente...